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    •     Toda jornada heroica tem um ponto de partida: o mundo comum. Campbell explica que é nele que o herói vive sua vida antes da aventura- um espaço de segurança, de rotina, de vínculos afetivos. Pode parecer simples, até repetitivo, mas é justamente essa “normalidade” que vai dar contraste à aventura extraordinária que está por vir.

         Na mitologia grega, por exemplo, Hércules não começa enfrentando monstros ou realizando façanhas sobre-humanas. Seu mundo comum é o convívio com os mortais, marcado por dilemas de identidade, por relações familiares e até por erros que o aproximam de qualquer pessoa. É desse espaço inicial que ele parte para os doze trabalhos que o consagrariam como herói.

            Nos quadrinhos e no cinema, o exemplo mais famoso talvez seja Peter Parker, o Homem-Aranha. Seu mundo comum é o de um adolescente de Nova York, dividido entre a escola, o trabalho de fotógrafo e os desafios típicos da juventude. Esse cenário inicial é essencial para que possamos compreender a grandeza da transformação que ocorre quando ele assume a identidade heroica.

      Fonte: Imagens de Homem Aranha, fotos e Spider Man papéis de parede

          E na literatura ? Temos o Capitão Rodrigo Cambará, de O Tempo e o Vento, do escritor brasileiro Érico Veríssimo. Seu mundo comum são as vilas e estâncias do Rio Grande do Sul, em meio a festas, paixões e duelos. É nesse cotidiano, cheio de intensidade e cor local, que se revela sua coragem e sua irreverência. Só depois é que ele se lança em aventuras maiores, marcadas por batalhas e profundas transformações.

             Mas não pense que o mundo comum está só nas histórias. Ele também faz parte da nossa vida. Pode ser o bairro em que crescemos, a escola onde estudamos, a rotina do trabalho, ou até mesmo a casa em que estamos agora. Esse é o espaço que nos dá identidade, mas também aquele de onde surgem os chamados à mudança.

          E você? Já conseguiu reconhecer qual é o seu mundo comum hoje? Que rotinas, pessoas ou lugares formam esse cenário inicial da sua própria jornada?


    • Talvez você já tenha ouvido essa expressão ou até tenha vivido algo parecido sem perceber. O chamado à aventura é aquele instante que nos tira do lugar-comum, que nos apresenta um desafio, uma oportunidade ou uma crise que nos obriga a olhar além da rotina. É o ponto em que a vida parece dizer: “há algo mais esperando por você.”

      Pense por um segundo: alguma vez você sentiu vontade de mudar tudo? De viajar, de aprender algo novo, de encarar um desafio que parecia impossível? Ou, ao contrário, foi surpreendido por uma situação que te tirou completamente do seu lugar seguro? Essas são formas de o chamado à aventura acontecer.

      Para Campbell (2007, p. 66) :

      esse primeiro estágio da jornada mitológica – que denominamos aqui “o chamado da aventura” – significa que o destino convocou o herói a transferiu lhe o centro de gravidade do seio da sociedade para uma região desconhecida. Essa fatídica região dos tesouros e dos perigos pode ser representada sob várias formas: como uma terra distante, uma floresta, um reino subterrâneo, a parte inferior das ondas, a parte superior do céu, uma ilha secreta, o topo de uma elevada montanha ou um profundo estado onírico, mas sempre é um lugar habitado por seres estranhamente fluidos e polimorfos, tormentos inimagináveis, façanhas sobre-humanas e delícias impossíveis.

      É nesse momento que o protagonista é convidado a atravessar a fronteira entre o mundo conhecido e o desconhecido. Às vezes, o chamado é claro e direto. Outras vezes, sutil e quase imperceptível, mas uma coisa é certa: ele traz a promessa de mudança e crescimento.

      Vamos explorar essa primeira etapa da jornada com alguns exemplos bem conhecidos?

      Em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001), Harry vive num armário embaixo da escada, levando uma vida comum (e difícil), até que recebe uma carta de Hogwarts, convidando-o a estudar magia. Essa carta é o seu chamado à aventura, abrindo a porta para um mundo totalmente novo (confira o trailer aqui).

      'Harry Potter e a Pedra Filosofal' retorna aos cinemas em formato 3D

      Fonte: 'Harry Potter e a Pedra Filosofal' retorna aos cinemas em formato 3D

      Na literatura brasileira, em Macunaíma, de Mário de Andrade, o protagonista vive em sua tribo até que, após perder o muiraquitã de sua amada, precisa sair para recuperá-lo; esse objeto roubado representa seu chamado à aventura, obrigando-o a atravessar rios, cidades e enfrentar um Brasil cheio de desafios e contradições.

      Leia a obra completa clicando aqui ou, se preferir, assista ao filme homônimo de 1969, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, para compreender melhor esta e as demais etapas que o “herói da nossa gente [...], sem nenhum caráter” vivencia.

      Fonte: Meio século de 'Macunaíma', obra-prima do cinema brasileiro - Diário da Região

      Na pintura, a célebre obra A Criação de Adão, de Michelangelo, no teto da Capela Sistina, mostra o momento em que Deus estende o dedo para tocar o de Adão, e pode ser lida simbolicamente como um chamado à vida, à consciência e à aventura humana e divina .

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      Fonte: A Criação de Adão de Michelangelo (com análise e releitura) - Cultura Genial

      Em muitos jogos, o chamado à aventura é logo a primeira missão que surge. É quando o personagem principal é convidado a salvar alguém, derrotar vilões ou explorar territórios desconhecidos. Pense , por exemplo, em “The Legend of Zelda”: Link começa sua aventura quando é chamado a proteger o reino ou resgatar a princesa.

      Os 5 melhores jogos de ação e aventura de 2022 - Millenium

      Fonte: Os 5 melhores jogos de ação e aventura de 2022 - Millenium

      Em todas essas obras, o chamado é o momento em que a vida comum do herói se rompe, exigindo coragem para atravessar o limiar rumo ao desconhecido.

      Mas o chamado à aventura não acontece só nas histórias. Ele acontece na realidade, o tempo todo. Às vezes, surge como algo grandioso, às vezes, em coisas aparentemente simples:

      • Começar um curso novo, como este em que você está agora.
      • Aceitar uma proposta de emprego em outra cidade.
      • Decidir enfrentar um medo, como falar em público.
      • Iniciar um projeto pessoal que ficou guardado por anos.
      • Escolher cuidar mais de si, da saúde, das relações...

      Muita gente, quando recebe esse chamado, sente medo ou dúvida. Isso é totalmente normal. Afinal, abandonar o conhecido e entrar num território novo pode assustar, mas também pode ser o caminho para grandes transformações.

      E você,  recebeu algum chamado à aventura recentemente?

    • Você já se viu desejando muito algo novo, mas ,ao mesmo tempo, sentindo medo de dar o primeiro passo? Talvez tenha surgido aquele pensamento: “E se não der certo?”, “E se eu não for bom o bastante?”, “E se eu me arrepender?”. Isso é a recusa ao chamado, e ela é absolutamente normal.

      Na Jornada do Herói, a recusa ao chamado representa o momento em que o protagonista hesita, resiste ou até tenta ignorar a necessidade de mudar. Campbell explica que o medo do desconhecido é natural. Afinal, deixar o familiar para trás significa abrir mão da segurança, da rotina e, muitas vezes, até da imagem que fazemos de nós mesmos.

      E o curioso é que, na maioria das grandes histórias, a recusa ao chamado é quase obrigatória, porque ela mostra que o herói também tem fraquezas, dúvidas, receios, como qualquer ser humano. Isso torna o herói próximo de nós, faz com que possamos nos identificar com ele.

      Você se lembra de quando falamos do chamado à aventura em Macunaíma, de Mário de Andrade? Pois bem, vamos olhar para essa mesma história sob outro ângulo. Embora tenha sido convidado à aventura depois de perder o muiraquitã da sua amada, Macunaíma não sai correndo mundo afora cheio de coragem. Pelo contrário, ele vive relutando em aceitar responsabilidades, foge dos desafios sempre que pode e só parte mesmo quando quase não há mais escolha.

      Sua história está cheia de momentos em que prefere o conforto, o prazer ou simplesmente a preguiça, voltando sempre que possível para o comodismo. Isso nos mostra algo muito interessante: mesmo depois de receber o chamado, muitos heróis hesitam, resistem ou querem permanecer na segurança da zona de conforto. Macunaíma nos ajuda a perceber que a jornada não é uma linha reta -tem idas e vindas, avanços e recuos, o que a torna muito mais humana e cheia de nuances.

      Ainda na literatura de língua portuguesa, encontramos outro herói que hesita em seguir viagem: Vasco da Gama, no clássico Os Lusíadas, de Camões. Embora a epopeia celebre as grandes navegações, há momentos em que os marinheiros, liderados por Vasco, demonstram medo diante de monstros, mares antes nunca navegados e tempestades violentas- como no episódio do Gigante Adamastor, figura mítica que simboliza os perigos e as incertezas da travessia.

      Essa mesma sensação de resistência à mudança aparece simbolicamente nas artes visuais, como nas obras de Portinari, especialmente em Retirantes.

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      Fonte: MASP

      Na pintura, vemos uma família nordestina de rostos angustiados, pele marcada pela seca e corpos curvados pela fome. Alguns seguram trouxas de roupas, enquanto outros caminham lentamente ou permanecem parados, como se presos a um chão que nada oferece. O olhar perdido, as expressões de cansaço e o passo hesitante revelam tanto o sofrimento físico quanto o medo de seguir adiante, inseguros sobre deixar para trás o pouco que ainda possuem ou arriscar o desconhecido.

      Mesmo diante da miséria extrema, há neles uma paralisia, uma recusa silenciosa ou, ao menos, um adiamento doloroso da travessia que poderia levá-los a outro destino.

      Mas a recusa ao chamado não acontece só nas artes. Na realidade, está por toda parte e pode ocorrer em situações grandes ou pequenas, como em:

      • Adiar o início de um curso novo por medo de não conseguir acompanhar.
      • Recusar uma oportunidade de emprego porque envolve mudar de cidade.
      • Desistir de um projeto pessoal por insegurança.
      • Evitar terminar um relacionamento infeliz porque teme ficar só.
      • Ignorar um problema de saúde por medo do diagnóstico.

      A recusa ao chamado está profundamente ligada ao medo. Medo de fracassar, de não estar preparado, de perder algo importante, contudo, há algo interessante: muitas vezes, a vida insiste. O chamado volta, de outra forma, ou surge uma crise que obriga o herói a agir. Campbell diz que, se o herói não aceita o chamado por vontade própria, o destino encontra uma maneira de empurrá-lo para frente.

      E você, já viveu algum momento em que também quis recusar o seu próprio chamado?

    • Esse é o instante em que surge o mentor - figura essencial em quase toda jornada de transformação.

      O mentor não é, necessariamente, o “mestre perfeito”, como nas histórias tradicionais. Às vezes, ele é falho, relutante ou aparece apenas por um instante. Em outras ocasiões, nem tem um corpo definido: pode ser uma memória, uma carta, um livro, um sonho, um trecho de música que te abre os olhos para algo maior. O mentor é quem te oferece um recurso interno ou externo para seguir. Ele não caminha por você, mas ilumina o caminho.

      Joseph Campbell descreve o mentor como a “fonte protetora”, a voz que encoraja o herói diante do desconhecido. Christopher Vogler, adaptando essa ideia para o cinema e a literatura contemporânea, afirma que o mentor pode cumprir papéis variados: guiar, treinar, provocar ou simplesmente fornecer um presente simbólico, uma ferramenta, um conhecimento, uma chave.

      Na literatura, há inúmeros exemplos marcantes de mentores que cumprem esse papel transformador. Em O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, Gandalf é o arquétipo exemplar do mentor: sábio, misterioso, dotado de vasto conhecimento e comprometido em ajudar Frodo a compreender o peso de sua missão e os perigos que o aguardam. Na literatura inglesa clássica, em As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, o leão Aslam é mentor e figura divina, guiando os irmãos Pevensie e outros personagens para além de suas limitações, sempre oferecendo lições sobre coragem, sacrifício e fé.

      Assim como nas grandes narrativas, em Caverna do Dragão, a figura do mentor se faz presente, representada pelo enigmático Mestre dos Magos, que orienta os heróis em meio às incertezas. Ele aparece e desaparece sem aviso, deixa pistas misteriosas e nunca entrega respostas prontas. Seu papel é justamente instigar a busca, provocar perguntas e fazer com que os jovens aventureiros cresçam por meio das próprias escolhas. Ele é o guia ou , como também chamado por Campbell, o arouto, aquele que“ representa o poder benigno e protetor do destino” (Campbell (2007, p.75).

      10 frases do mestre dos magos para a vida - Tenda News

      Fonte: 10 frases do mestre dos magos para a vida - Tenda News

      🧙‍♂️ Veja o Mestre dos Magos em ação em “O Dia do Mestre dos Magos”: YouTube - Caverna do Dragão - Episódio 18

      Já na música “O Mundo é um Moinho”, de Cartola, temos também a presença de um mentor, no entanto, curiosamente, aqui ele não encoraja a heroína a seguir jornada. Pelo contrário: suas palavras são um aviso, quase um presságio, e soam mais como um alerta do que como um incentivo. Ele diz:

      Ainda é cedo, amor

      Mal começaste a conhecer a vida

      Já anuncias a hora de partida

      Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

       

      Preste atenção, querida

      Embora eu saiba que estás resolvida

      Em cada esquina cai um pouco tua vida

      Em pouco tempo não serás mais o que és

       

      Ouça-me bem, amor

      Preste atenção o mundo é um moinho

      Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho

      Vai reduzir as ilusões a pó

       

      Preste atenção, querida

      De cada amor tu herdarás só o cinismo

      Quando notares estás à beira do abismo

      Abismo que cavaste com teus pés

      É como se ele se colocasse como alguém que já percorreu caminhos difíceis e agora tenta poupar a pessoa amada das dores do mundo. Ele não impede a jornada, entretanto a desaconselha. É um mentor que oferece sabedoria, mas tingida de desalento, como quem enxerga mais perigos do que recompensas. Uma voz que ecoa entre o cuidado e a resignação, diferente de outros mentores que instigam a aventura.

      🎵 Ouça Cartola cantando “O Mundo é um Moinho” aqui: YouTube - Cartola - O Mundo é um Moinho

      Seja no samba  de Cartola ou na fantasia de Caverna do Dragão, o mentor cumpre um papel essencial: preparar ou tentar proteger o herói\a heroína dos desafios, entretanto enquanto o Mestre dos Magos empurra os jovens para frente, Cartola, em sua canção, tenta evitar que o moinho do mundo lhes destrua os sonhos.

      E na vida real?

      Mentores não são apenas professores ou figuras de autoridade. Um avô que ensina pelo exemplo, uma amiga que te diz uma frase no momento exato, um autor que você nunca conheceu pessoalmente, mas que transforma sua forma de pensar, tudo isso pode ser mentor. Em contextos sociais marcados por desigualdades, o mentor é aquele que oferece espaço, voz ou escuta para quem nunca teve.

      Em algumas comunidades periféricas, por exemplo, o educador pode ser também o oficineiro de teatro, a mãe que alfabetiza o filho em casa, o líder comunitário que orienta jovens. Há mentores populares, anônimos, coletivos e há aqueles que só percebemos que foram mentores quando a travessia já está feita.

      O mentor nem sempre é agradável. Ele pode te confrontar, provocar, tirar suas certezas , como Sócrates fazia com seus interlocutores em Atenas. Aliás, o papel do mentor é muitas vezes esse: desestabilizar para revelar.

      E você: Você já teve um mentor em alguma fase da vida?

      Alguém que te ofereceu uma palavra, um empurrão ou te fez uma pergunta no momento certo?

      Poderia esse curso, esse módulo, esse encontro ser um tipo de mentoria simbólica para você?